O Silêncio como prática pedagógica
DOI:
https://doi.org/10.34117/bjdv11n10-080Keywords:
ensino de história, mito dos amordaçados, voz estudantil, professor-curador, cartografia dos silênciosAbstract
Considerando que a escola frequentemente confunde aprendizagem com obediência, convertendo o silêncio em tecnologia de controle — o “Mito dos Amordaçados” — e terceirizando acolhimento às plataformas que monetizam o ultraje, delineia-se o problema: a palavra estudantil é reprimida e o ensino de História perde densidade. Objetiva-se analisar os efeitos desse arranjo e propor dispositivos didáticos que façam dialogar mito e logos, reinstalando a fala pública como eixo do trabalho. Para tanto, procede-se a uma revisão teórica (Freire, Rüsen, Nadai, Mendes, Capel) articulada a um ensaio pedagógico com procedimentos de baixo custo: contrato de voz, cartografia dos silêncios, curadorias críticas de mídias/jogos, oficinas narrativas (incluindo HQ) e avaliação concebida como leitura pública de processos, com o professor atuando como curador-mediador. Desse modo, observa-se aumento da diversidade e da qualidade das intervenções (mais uso de fontes, autocorreções e escuta do dissenso), redução de chacotas/interrupções e deslocamento do silêncio de mordaça para pausa produtiva, resultando em aulas mais densas sem perder rigor. O que permite concluir que assegurar condições de fala segura não é ornamento, mas fundamento do ofício histórico; requer artesania docente e políticas que garantam tempo de estudo, avaliação processual e pertencimento, orientando a vida comum com responsabilidade e imaginação.
References
AGNOL, Rafael dall. História em quadrinhos na Arte Educação. TCC. Caxias do Sul. 2019.
ARANTES, Taís Turuça. Trabalhar a inclusão social em sala através da HQs da Série X-Men. Circulo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. 2013.
ASSMANN, Jan. Memória comunicativa e memória cultural. História Oral, v. 19, n. 1, p. 115-127, jan./jun. 2016.
AVAAZ. O algoritmo do ódio: como o Facebook lucra ao deixar o ódio e a desinformação prosperarem. [S.l.]: Avaaz, 2020. Relatório. Disponível em: https://secure.avaaz.org/page/pt/disinfohub/. Acesso em: 12 out. 2025.
BARCA, Isabel. Aula oficina: do projeto à avaliação. In: JORNADA DE EDUCAÇÃO HISTÓRICA, 4., 2004, Braga. Atas [...]. Braga: Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, 2004. p. 131-144.
BARCA, Isabel. Ideias chave para a educação histórica: uma busca de (inter)identidades. História Revista, Goiânia, v. 17, n. 1, p. 37-51, jan./jun. 2012.
BITTENCOURT, Circe. Ensino de história: fundamentos e métodos. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
________ Gênero, linguagens e etnicidades. Símbolos e Alegorias do preconceito: (Org.) BORGES, L. et al. Goiânia-GO: FUNAPE, 2013.
BLOCH, Marc. Apologia da história: ou O ofício do historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-209-Brasileira e Africana. Brasília, DF, 2004. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/acervo-linhaeditorial/publicacoes-diversas/temas-interdisciplinares/diretrizescurriculares-nacionais-para-a-educacao-dasrelacoes-etnico-raciaise-para-o-ensino-de-historia-e-cultura-afro-brasileira-e-africana. Acesso em: 15 mar. 2024.
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: História. Brasília, DF: MEC: SEF, 1998.
CAPEL, Heloisa Selma Fernandes. O espelho de Atena: narrativa mítica e formação / Heloisa Selma Fernandes Capel. – Goiânia; Editora da Imprensa Universitária, 2019
CERRI, Luis Fernando. Ensino de história e consciência histórica: implicações didáticas de uma discussão contemporânea. Rio de Janeiro: FGV, 2011.
CERRI, Luis Fernando. Um lugar na história para a didática da história. História & Ensino, Londrina, v. 23, n. 1, p. 11-30, jan./jun. 2017.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, [1975] 2007.
CEZAR, Mariana dos Santos. Saberes em relações dialógicas: “não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”. Pesquisa e Debate em Educação, UFJF, v. 10, n. 2, p. 1247–1258, jul.–dez. 2020.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel, 1990.
CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Tradução de Guacira Lopes Louro. Teoria & Educação, Porto Alegre, n. 2, p. 177-219, 1990.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANTT, Alain. Dicionário de símbolos. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
CRUZ, Thiago Alencar. Paralelismo audiovisual- a Franquia X-Men e suas possibilidades no ensino de direitos fundamentais. Anais da II jornada de Ciência, Cultura e Sociedade da Unitins. 2018.
DARNTON, R. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das Letras. 1990.
DOLZ, Joaquim; NOVERRAZ, Michele; SCHNEUWLY, Bernard. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: DOLZ, Joaquim; SCHNEUWLY, Bernard e colaboradores. Gêneros orais e escritos na escola. Trad. E Org. de Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2004.
FERREIRA, Marieta M.; FRANCO, Renato. Desafios do ensino de História. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 41. 2008.
FINLEY, M. I. Uso e abuso da história. Tradução de Marylene P. Michael. 1. ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1989. (Coleção O Homem e a História).
FORACCHI, M. M. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. São Paulo: Nacional. 1965. p. 302.
FONSECA, Thaís Nívia de Lima. História e ensino de História. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, [1966] 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Autores Associados; Cortez, 1989. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, 4)
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 68. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HOBSBAWM, Eric e RANGER, Terence (orgs.) A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, s/d.
GOMES, Ivan Lima. Os novos homens do amanhã: projetos e disputas em torno dos quadrinhos na América Latina (Brasil e Chile, anos 1960-1970). Curitiba: Prismas, 2018.
GOMES, Ivan Lima; NASCIMENTO, Leonardo Pires. Circulações artísticas no Cone Sul: notas preliminares sobre João Mottini e o mercado argentino de quadrinhos durante a Guerra Fria (décadas de 1940 a 1960). Caravelle, Toulouse, n. 116, p. 13-26, 2021.
GONÇALVES, Alan Ramos. A Metáfora em X-Men. XI Congresso Internacional da ABRALIC. USP- São Paulo. 2008.
GROESTEEN, T. História em quadrinhos: essa desconhecida arte popular. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004.
GROPPO, L. A. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio de Janeiro: Difel, 2000.
JUNG, Carl G. O Homem e seus símbolos. Tradução de Maria Lúcia Pinho. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (1. ed. 1964).
MACIAEL. Rodrigo Lima. A mutação como metáfora para o discurso da diferença: representações das práticas de racismo e de homofobia no universo literário dos X-Men. Revista Internacional Interdisciplinar. 2019.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução: Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural, 1996. t. 1.
MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos / Scott McCloud; tradução Helcio de Carvalho, Marisa do Nascimento Paro. São Paulo. Makron Books, 1995.
MENDES, Breno. Limiar : estudos de teoria, metodologia e ensino de história [Ebook] / Breno Mendes. - 2. ed. - Dados eletrônicos (1 arquivo : PDF). - Goiânia : Cegraf UFG, 2022. il.
NADAI, Elza. O ensino de história no Brasil: trajetória e perspectiva. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 13, n. 25/26, p. 143–162, set. 1992/ago. 1993.
ORTIZ, R. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006.
PETRUCCI, A. Ler por ler: um futuro para a leitura. In: CHARTIER, R.; CAVALLO, G. (orgs.). História da leitura no mundo ocidental. São Paulo: Ática, 1999. p. 203-227.
PITTA, Danielle Perini Rocha. Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert Durand. Recife: UFPE, 1995. Disponível em: <http://gepai.yolasite.com/about-us.php>. Acesso em: 11 mar. 2024, às 21h50min.
PREDIGER, S. Estado da arte da situação do jovem rural: a construção de identidades.
Revista Anagrama: Revista Cientifica Interdisciplinar da Graduação, ano 3, ed. 1, set.-nov. 2009
RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
______. Interpretação e ideologias. Organização, tradução e apresentação de Milton Japiassu. 4. ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 1990.
RIESMAN, D.; GLAZER, N.; DENNEY, R. A multidão solitária: um estudo da mudança do caráter americano. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.
RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica / Jörn Rüsen; tradução de Estevão de Rezende Martins. – Brasília : Editora Universidade de Brasília. 2001.
SOUZA, Carlos Santana de. A carnavalização da educação brasileira na figura do pavão: leitura de A casa da madrinha, de Lygia Bojunga Nunes. Revista Acadêmica Unifan, São Paulo, 2008, ano 5, p. 155-165
SOUZA, Carlos Santana de. Desnude da Educação Brasileira Dos Anos 70: símbolos e alegorias em A casa da madrinha, de Lygia BOjunga Nunes. Goiânia, Editora Kelps 2023. 86p.
VERGUEIRO, Waldomiro. Desenvolvimento e tendências do mercado de quadrinhos no Brasil. In: VERGUEIRO, Waldomiro; SANTOS; ELÍSIO, Roberto (org.). A história em quadrinhos no Brasil. São Paulo: Editora Laços, 2011. p. 45-47
WILLIAMS, R. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
______. LDB 5692/71. Disponível em: <https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/128525/lei-de-diretrizes-e-base-de--1971-lei-5692-71>. Aceso em 16 mar. de 2024, às 12h19.
______. LDB 9394/96. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/81ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em 15 de mar. de 2024, às 16h10.

