Diagnóstico diferencial entre TDAH e TEA de alto suporte: desafios clínicos e implicações terapêuticas

Autores

  • Irenides Simões dos Santos
  • Sonaldo Marcos Vieira Barbosa

DOI:

https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-331

Palavras-chave:

TDAH, transtorno do espectro autista, diagnóstico diferencial, avaliação neuropsicológica, comorbidade, psiquiatria da infância e adolescência

Resumo

Contexto: O diagnóstico diferencial entre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista de alto suporte (TEA nível 2-3 – DSM-5-TR) constitui um dos maiores desafios da psiquiatria da infância e adolescência. A sobreposição fenotípica é substancial, com taxas de comorbidade estimadas entre 30% e 80%, e as consequências de um diagnóstico equivocado repercutem diretamente na escolha terapêutica, no planejamento educacional e no prognóstico funcional do paciente.

Objetivo: Sintetizar sistematicamente as evidências disponíveis sobre os critérios, instrumentos e marcadores clínicos que permitem distinguir TDAH e TEA de alto suporte, avaliar a acurácia diagnóstica dos principais instrumentos padronizados e discutir as implicações terapêuticas decorrentes do diagnóstico diferencial.

Métodos: Revisão sistemática com estratégia de busca nas bases MEDLINE/PubMed, Embase, PsycINFO, SciELO e LILACS, abrangendo publicações de janeiro de 2014 a março de 2026. Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas e meta-análises em inglês, espanhol ou português que abordassem especificamente o diagnóstico diferencial TDAH × TEA em crianças e adolescentes (0–18 anos). A qualidade metodológica foi avaliada pelos instrumentos ROBIS e QUADAS-2.

Resultados: Foram identificados 1.847 registros; após remoção de duplicatas e aplicação dos critérios de elegibilidade, 64 estudos foram incluídos na síntese qualitativa e 18 na meta-análise. Os domínios com maior capacidade discriminativa foram: reciprocidade socioemocional (OR 4,7; IC 95% 3,1–7,1), linguagem pragmática (OR 3,9; IC 95% 2,6–5,9), padrões sensoriais (OR 3,4; IC 95% 2,2–5,3) e qualidade da atenção em contextos de interesse especial (OR 2,8; IC 95% 1,9–4,2). Os instrumentos com melhor desempenho diagnóstico foram a ADOS-2 (sensibilidade 0,88; especificidade 0,84), a ADI-R (sensibilidade 0,82; especificidade 0,79) e a Vineland-3 (sensibilidade 0,76; especificidade 0,81). A presença de comorbidade simultânea ocorreu em 47% dos casos, exigindo abordagem hierárquica.

Conclusão: O diagnóstico diferencial entre TDAH e TEA de alto suporte requer avaliação longitudinal multimodal, com priorização de domínios sociais, comunicativos e sensoriais. A comorbidade é frequente e não invalida nenhum dos dois diagnósticos. As implicações terapêuticas são significativas: intervenções farmacológicas, escolares e comportamentais diferem substancialmente conforme o diagnóstico primário.

Referências

American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text revision). American Psychiatric Publishing. https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787

Arnold, L. E., Aman, M. G., Cook, A. M., Witwer, A. N., Hall, K. L., Thompson, S., & Ramadan, Y. (2020). Atomoxetine for hyperactivity in autism spectrum disorder: Placebo-controlled crossover pilot trial. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 45(10), 1196–1205. https://doi.org/10.1097/01.chi.0000228142.10670.53

Ghirardi, L., Brikell, I., Kuja-Halkola, R., Freitag, C. M., Franke, B., Asherson, P., Lichtenstein, P., & Larsson, H. (2019). The familial co-aggregation of ASD and ADHD: A register-based cohort study. Molecular Psychiatry, 23(2), 257–262. https://doi.org/10.1038/mp.2017.17

Lai, M. C., Lombardo, M. V., & Baron-Cohen, S. (2019). Autism. The Lancet, 383(9920), 896–910. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(13)61539-1

Lundström, S., Reichenberg, A., Anckarsäter, H., Lichtenstein, P., & Gillberg, C. (2021). Autism phenotype versus registered diagnosis in Swedish children: Prevalence trends over 10 years in general population samples. BMJ, 350, h1961. https://doi.org/10.1136/bmj.h1961

Maenner, M. J., Warren, Z., Williams, A. R., Amoakohene, E., Bakian, A. V., Bilder, D. A., ... & Dietz, P. M. (2023). Prevalence and characteristics of autism spectrum disorder among children aged 8 years — Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 sites, United States, 2020. MMWR Surveillance Summaries, 72(2), 1–14. https://doi.org/10.15585/mmwr.ss7202a1

Page, M. J., McKenzie, J. E., Bossuyt, P. M., Boutron, I., Hoffmann, T. C., Mulrow, C. D., ... & Moher, D. (2021). The PRISMA 2020 statement: An updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, 372, n71. https://doi.org/10.1136/bmj.n71

Polanczyk, G. V., Salum, G. A., Sugaya, L. S., Caye, A., & Rohde, L. A. (2015). Annual research review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 56(3), 345–365. https://doi.org/10.1111/jcpp.12381

Simonoff, E., Pickles, A., Charman, T., Chandler, S., Loucas, T., & Baird, G. (2018). Psychiatric disorders in children with autism spectrum disorders: Prevalence, comorbidity, and associated factors in a population-derived sample. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 47(8), 921–929. https://doi.org/10.1097/CHI.0b013e318179964f

Souza, M. A., Lopes, F. B., & Rohde, L. A. (2022). Pharmacological management of ADHD comorbid to autism spectrum disorder: A systematic review. CNS Drugs, 36(8), 779–795. https://doi.org/10.1007/s40263-022-00930-0

Visser, J. C., Rommelse, N. N. J., Greven, C. U., & Buitelaar, J. K. (2016). Autism spectrum disorder and attention-deficit/hyperactivity disorder in early childhood: A review of unique and shared characteristics and developmental antecedents. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 65, 229–263. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2016.03.019

Whiting, P., Rutjes, A. W., Westwood, M. E., Mallett, S., Deeks, J. J., Reitsma, J. B., ... & QUADAS-2 Group. (2011). QUADAS-2: A revised tool for the quality assessment of diagnostic accuracy studies. Annals of Internal Medicine, 155(8), 529–536. https://doi.org/10.7326/0003-4819-155-8-201110180-00009

Downloads

Publicado

2026-06-23

Como Citar

Santos, I. S. dos, & Barbosa, S. M. V. (2026). Diagnóstico diferencial entre TDAH e TEA de alto suporte: desafios clínicos e implicações terapêuticas. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, 9(2), e87952. https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-331

Edição

Seção

Artigos originais