Governança da água em disputa: a interface do comitê de bacia hidrográfica do rio Ivinhema e o agro-hidronegócio no Mato Grosso do Sul

Autores

  • Adriano Chaves de França

DOI:

https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-131

Palavras-chave:

recursos hídricos, comitê de bacia hidrográfica, governança da água, agronegócio, rio Ivinhema

Resumo

A construção social sobre a água envolve um encadeamento de elementos que incluem sua valoração econômica enquanto recurso hídrico e a ordem política que destaca sua fluidez por entre os sistemas sociais e ambientais. Este artigo analisa a constituição de um modelo de gestão integrada por meio do Comitê de Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Ivinhema, no estado de Mato Grosso do Sul (MS), com ênfase nas múltiplas geografias da ação política e de planejamento induzidas pelo comitê na organização socioespacial da bacia. A partir de pesquisa documental — análise de atas e documentos do CBH Ivinhema produzidos entre 2010 e 2022 —, levantamento legislativo, trabalho de campo e dados geoespaciais institucionais, o estudo examina as relações de poder na governança participativa das águas. Os resultados evidenciam uma segmentação da representação no comitê, com predomínio de cadeiras ocupadas pelo setor do agronegócio, esvaziamento da participação de setores minoritários, desvinculação de responsabilidades em situações de conflito e direcionamento de pautas conforme os interesses do agro-hidronegócio. A gestão integrada e descentralizada ocorre de forma subalterna ao capital agroindustrial, com baixa efetividade dos instrumentos de planejamento da bacia. Conclui-se que o CBH Ivinhema funciona como um modelo de regulação tripartite, no qual o Estado media relações de acesso a bens de dominialidade comum, instaurando mecanismos de apropriação e exploração econômica da água em detrimento das demais formas de relação hidrossocial.

Referências

ANA – AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2019: informe anual. Brasília: ANA, 2019.

BRASIL. (1988) Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

________. Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 jan. 1997.

________. Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000. Dispõe sobre a criação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 jul. 2000.

BARLOW, M. Água – futuro azul: como proteger a água potável para o futuro das pessoas e do planeta para sempre. São Paulo: M. Books do Brasil, 2015.

BORDALO, C. A. L. Gestão de recursos hídricos em contexto de escassez: desafios e perspectivas. Belém: UFPA, 2017.

BOUGUERRA, M. L. As batalhas da água: por um bem comum da humanidade. Petrópolis: Vozes, 2004.

CHAGAS, E. P.; CHAFFE, P. L. B.; BLÖSCHL, G. Increasing synchrony of high streamflow extremes in Brazil. Geophysical Research Letters, v. 49, n. 3, 2022.

COUTO, M. A água e a águia. Danuta Wojciechowska [ilustrações]. 1a ed. Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2019.

CORRÊA, E. C. C. Água, gestão e diferentes perspectivas de acesso: algumas considerações. IN: COTAREREGA, M. C. V. B; ISAGUIRRE, K. R; SANTOS, G.D. (orgs.) Conflitos Agrários Na Perspectiva Socioambiental. Ed. da PUC Goiás, Goiânia, 2020

FRANÇA, A C. As implicações geográficas da água como recurso: um olhar sobre o comitê de bacia hidrográfica do rio Ivinhema. 2024. 240 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Geografia, Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2024.

GWP – GLOBAL WATER PARTNERSHIP. Integrated Water Resources Management. TAC Background Papers, n. 4. Stockholm: GWP, 2000.

HARVEY, D. O novo imperialismo. 8. ed. São Paulo: Loyola, 2014.

IMASUL – Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul. Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Miranda – Diagnóstico. Campo Grande: IMASUL, 2014. 363p.

________. Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Ivinhema. Campo Grande, IMASUL, 2015.

IORIS, A. A. R. The political ecology of water in capitalist Brazil. In: IORIS, A. A. R. (Org.). Tropical capitalist Brazil: water and nature. London: Routledge, 2017. p. 1-32.

________. A. A. R. The limits of Brazil's water resources policy: issues of scale and participation. Water International, v. 33, n. 1, p. 62-77, 2008.

LIBANIO, P. Two decades of Brazil's participatory model for water resources management: from enthusiasm to frustration. Water International, v. 43, n. 4, p. 494-511, 2018.

MATO GROSSO DO SUL. Lei n.º 2.406, de 29 de janeiro de 2002. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos e cria o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Diário Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2002.

________. Lei nº 3.183, de 21 de fevereiro de 2006. Dispõe sobre a gestão, proteção e preservação das águas subterrâneas de domínio do Estado. Diário Oficial do Estado, Campo Grande, MS, 22 fev. 2006.

________. Plano Estadual de Recursos Hídricos de Mato Grosso do Sul. Campo Grande: UEMS, 2010.

________. Deliberação CERH/MS nº 016, de 10 de dezembro de 2009. Cria o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Ivinhema. Diário Oficial do Estado, Campo Grande, MS, 11 dez. 2009.

MORETTI, E. C.; MARINHO, V. L. F. A gestão de recursos hídricos no Brasil e os comitês de bacias hidrográficas: a experiência do CBH-Miranda (MS). Revista da ANPEGE, v. 12, n. 17, p. 123-140, 2017.

PINTO-COELHO, R. M.; HAVENS, K. Gestão de recursos hídricos em tempos de crise. Porto Alegre: Artmed, 2016.

PORTO-GONÇALVES, C. W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

PORTO-GONÇALVES, C. W. A água como território, recurso e bem comum. In: AYALA, P. O.; PORTO-GONÇALVES, C. W. (Org.). Direito ambiental e a crise ecológica. São Paulo: Saraiva, 2020.

RIBEIRO, W. C. A ordem ambiental internacional. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008.

ROWIECHI, J.; SILVA, K. R. D.; BORINELLI, B.; COLTRO, F. L. Z. Governança represada: assimetria de poder e resistência no Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tibagi. Interações, Campo Grande, v. 24, n. 2, p. 555-571, 2023.

SANTOS, D. E. M. C; "Agro é tudo": reestruturação produtiva e hegemonia do agronegócio no Brasil. (Tese) Programa de Pós-Graduação em História Econômica, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SANTOS, T. P.; MORAES, D. S. L.; ROSSI, M. G. A cobrança pelo uso da água no Brasil: instrumento econômico de gestão ambiental. Desenvolvimento e Meio Ambiente, v. 28, p. 429-450, 2013.

SHIVA, V. El mundo al revés: el agua como mercancía y la defensa del agua como bien comun. Barcelona: Icaria, 2006.

SILVA, C. L.; KERSTING, C. B.; GRIBOGGI, A. M. Participação social na gestão dos recursos hídricos: uma análise dos comitês de bacias hidrográficas a partir da matriz GUT. Contribuciones a Las Ciencias Sociales, v. 16, n. 4, p. 1517-1541, 2023.

THOMAZ JÚNIOR, A. Questão agrária, conflitos territoriais e o monopólio da água. Presidente Prudente: CEGeT, 2012.

TRINDADE, L. L; SCHEIBE, L. F. Gestão das águas: limitações e contribuições na atuação dos comitês de bacias hidrográficas brasileiros. Revista Ambiente & Sociedade. Vol. 22, 2019. Disponível em: https://https://www.scielo.br/j/asoc/. Acesso em: 15 nov. 2023.

TUNDISI, J. G. Recursos hídricos no futuro: problemas e soluções. Estudos Avançados, São Paulo, v. 22, n. 63, p. 7-16, 2014.

Downloads

Publicado

2026-05-12

Como Citar

França, A. C. de. (2026). Governança da água em disputa: a interface do comitê de bacia hidrográfica do rio Ivinhema e o agro-hidronegócio no Mato Grosso do Sul. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, 9(2), e87059. https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-131

Edição

Seção

Artigos originais