Manejo da hipertensão arterial resistente na atenção primária à saúde do SUS: abordagem farmacológica e não farmacológica — Revisão sistemática
DOI:
https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-037Palavras-chave:
hipertensão arterial resistente, atenção primária à saúde, Sistema Único de Saúde, espironolactona, dieta DASH, modificação do estilo de vida, revisão sistemáticaResumo
Introdução: A hipertensão arterial resistente (HAR) afeta cerca de 11,7% dos hipertensos brasileiros e representa um dos maiores desafios da Atenção Primária à Saúde (APS). Caracterizada pela persistência de pressão arterial (PA) acima das metas com ≥3 anti-hipertensivos em doses máximas toleradas, incluindo diurético, a HAR associa-se a risco cardiovascular até 95% maior do que a hipertensão responsiva ao tratamento.
Objetivo: Sintetizar as evidências sobre estratégias farmacológicas e não farmacológicas para o manejo da HAR na APS do SUS, avaliando eficácia, segurança e aplicabilidade no contexto brasileiro.
Método: Revisão sistemática narrativa com síntese integrativa, conduzida conforme PRISMA 2020, com buscas nas bases MEDLINE/PubMed, LILACS, SciELO, Embase, Cochrane Library e Web of Science. Avaliação de qualidade por RoB 2.0, NOS, CASP e GRADE.
Resultados: A pseudorresistência — especialmente por não adesão e efeito do avental branco — é a causa mais prevalente de aparente HAR e deve ser excluída por MAPA ou MRPA antes de qualquer escalonamento terapêutico. Confirmada a HAR verdadeira, a espironolactona como quarto fármaco é a intervenção farmacológica com maior nível de evidência: o ensaio PATHWAY-2 demonstrou redução de –8,70 mmHg na PAS domiciliar versus placebo e –4,26 mmHg versus demais agentes ativos, metanálise de 12 ECRs (n=1.655) confirmou redução de –20,14 mmHg (IC95% –31,17 a –9,12) versus placebo em PAS de consultório, e a NMA mais abrangente disponível (24 estudos, ~3.000 pacientes) posicionou espironolactona como o agente mais eficaz para HAR em PAS de consultório (–13,30 mmHg) e em MAPA 24h (–8,46 mmHg). O ensaio brasileiro ReHOT mostrou eficácia semelhante entre espironolactona e clonidina no controle por MAPA (20,8% vs. 20,5%), com vantagem absoluta e posologia mais favorável para a espironolactona. Abordagens não farmacológicas têm evidência crescente específica para HAR: o ensaio TRIUMPH (n=140) foi o primeiro ECR a demonstrar que modificações intensivas de estilo de vida — dieta DASH, exercício aeróbico e perda de peso — reduzem significativamente a PA em hipertensos resistentes. Metanálise de 30 ECRs (n=5.545) confirmou que a dieta DASH reduz PAS em –3,2 mmHg e PAD em –2,5 mmHg versus dieta controle (evidência moderada pelo GRADE).
Conclusão: O manejo da HAR na APS/SUS requer abordagem integrada e sequencial: (1) exclusão de pseudorresistência, (2) investigação de causas secundárias, (3) otimização da tríplice terapia, e (4) adição de quarto fármaco — preferencialmente espironolactona — combinada a modificações intensivas de estilo de vida. Barreiras contextuais do SUS — acesso limitado à MAPA, subutilização da espironolactona e baixa adesão — demandam soluções estruturais de gestão.
Referências
AZZAM, O. et al. Taming resistant hypertension: the promise of novel pharmacologic approaches and renal denervation. British Journal of Pharmacology, 2024. DOI: 10.1111/bph.16247.
BARROSO, W. K. S. et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 116, n. 3, p. 516-658, 2021. DOI: 10.36660/abc.20201238.
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: MS, 2023.
BUSO, G. et al. The global burden of resistant hypertension and potential treatment options. European Cardiology Review, v. 19, p. e07, 2024. DOI: 10.15420/ecr.2023.51.
GRILLO, L. P. et al. Tendência da prevalência de hipertensão arterial sistêmica segundo as regiões do Brasil antes, durante e após a pandemia de COVID-19. Contribuciones a las Ciencias Sociales, v. 17, n. 4, p. e6239, 2024.
GUO, Q. et al. Clinical efficacy and safety of spironolactone in patients with resistant hypertension: a systematic review and meta-analysis. Medicine, 2020. DOI: 10.1097/MD.0000000000021717.
IMBROZIO, A. M. T. et al. Hipertensão arterial resistente: desvendando suas principais causas, potenciais complicações e o papel da atenção primária. Brazilian Journal of Health Review, v. 8, n. 1, p. 1-15, 2025.
ISNAINI, N.; DEWI, F. S. T.; MADYANINGRUM, E. Blood pressure impact of dietary practices using the DASH method: a systematic review and meta-analysis. Clinical Hypertension, v. 31, p. e12, 2025. DOI: 10.5646/ch.2025.31.e12.
KRIEGER, E. M. et al. Spironolactone versus clonidine as a fourth-drug therapy for resistant hypertension: the ReHOT randomized study. Hypertension, v. 71, n. 4, p. 681-690, 2018. DOI: 10.1161/HYPERTENSIONAHA.117.10662.
LIMA, S. T. et al. Dietary approach to hypertension based on low glycaemic index and principles of DASH: a randomised trial in a primary care service. British Journal of Nutrition, v. 110, n. 8, p. 1472-1479, 2013.
MACHADO, C. A. et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025. SBC/SBH/SBN. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025.
MIGOWSKI, A.; COSTA, G. T. L. Análise temporal da prevalência de hipertensão arterial no Brasil entre 2006 e 2023: evidências a partir dos dados do Vigitel. OnScience, v. 2, n. 2, p. e0027, 2024.
NILSON, E. A. F. et al. Sodium intake according to NOVA food classification in Brazil: trends from 2002 to 2018. Cadernos de Saúde Pública, v. 40, n. 2, p. e00073823, 2024. DOI: 10.1590/0102-311XEN073823.
ONWUZO, C. et al. DASH diet: a review of its scientifically proven hypertension reduction and health benefits. Cureus, v. 15, n. 9, p. e44692, 2023. DOI: 10.7759/cureus.44692.
PAGE, M. J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, v. 372, p. n71, 2021.
SANEEI, P. et al. Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH) diet and blood pressure reduction in adults with and without hypertension: a systematic review and meta-analysis of RCTs. Journal of Human Nutrition and Dietetics, 2020. DOI: 10.1093/advances/nmy014.
TIAN, Z. et al. Efficacy of pharmacological and interventional treatment for resistant hypertension: a network meta-analysis. Cardiovascular Research, v. 120, p. 108-119, 2024. DOI: 10.1093/cvr/cvad165.
USENBO, A. et al. Spironolactone versus eplerenone in patients with resistant hypertension: a systematic review and indirect meta-analysis. Journal of Asian Pacific Society of Cardiology, v. 3, p. e12, 2024.
WHELTON, P. K. et al. 2024 AHA/ACC Guideline for the Management of Hypertension in Adults. Hypertension, v. 83, n. 5, p. e1-e120, 2024.
WILLIAMS, B. et al. Spironolactone versus placebo, bisoprolol, and doxazosin to determine the optimal treatment for drug-resistant hypertension (PATHWAY-2): a randomised, double-blind, crossover trial. Lancet, v. 386, n. 10008, p. 2059-2068, 2015. DOI: 10.1016/S0140-6736(15)00257-3.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global report on hypertension: the race against a silent killer. Geneva: WHO, 2023.
YANG, H. et al. Lifestyle interventions for hypertension management in primary care: a narrative review. Ewha Medical Journal, 2025. DOI: 10.12771/emj.2025.
YEAGER, S. et al. Healthy changes in diet, activity improved treatment-resistant high blood pressure (TRIUMPH trial). Circulation, 2021. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.121.054943.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
- O conteúdo dos artigos é de responsabilidade exclusiva dos autores.
- É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo dos artigos, desde que citada a fonte.
- Artigos com plágio serão recusados, e o autor do plágio perderá o direito de publicar nesta revista.
- Os nomes e endereços informados nesta revista serão utilizados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação e não estão disponíveis para outros fins ou a terceiros.
- Depois de enviar os artigos, os autores cedem os direitos autorais de seus artigos ao BJAER. Se você se arrepender da submissão, o autor tem o direito de solicitar ao BJAER que não publique seu artigo. Porém, essa solicitação deve ocorrer até dois meses antes da divulgação do número que o artigo será publicado.
- O BJAER usa a licença Creative Commons CC BY. Informações sobre esta licença podem ser encontradas em: https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/
Brazilian Journal of Animal and Environmental Research (BJAER) se reserva o direito de efetuar nos originais alterações de ordem normativa, ortográfica e gramatical, com vistas a manter o padrão culto da língua, respeitando, porém, o estilo dos autores. Os trabalhos finais não serão enviadas aos autores.