Diagnóstico de delirium em pacientes críticos e pós-operatórios: acurácia das ferramentas clínicas e papel dos biomarcadores séricos — Revisão sistemática
DOI:
https://doi.org/10.34188/bjaerv9n2-036Palavras-chave:
delirium, unidade de terapia intensiva, diagnóstico, CAM-ICU, ICDSC, biomarcadores, neurofilamento leve, S100β, revisão sistemáticaResumo
Introdução: O delirium é a complicação neuropsiquiátrica mais frequente em pacientes críticos e pós-operatórios, com prevalência de 35,7% em adultos na UTI (IC95% 32,4–39,0%) e incidência de até 80% em pacientes sob ventilação mecânica. A síndrome permanece não reconhecida em 55%–80% dos casos, com impacto direto na mortalidade, tempo de internação e desfechos cognitivos de longo prazo.
Objetivo: Sintetizar as evidências sobre a acurácia diagnóstica das ferramentas clínicas de rastreamento de delirium (CAM-ICU, ICDSC, 3D-CAM) e o papel dos biomarcadores séricos emergentes (NfL, S100β, GFAP, IL-6, PCR) no diagnóstico de delirium em adultos internados em UTI ou em pós-operatório.
Método: Revisão sistemática narrativa com síntese integrativa de metanálises e estudos de acurácia diagnóstica, conduzida conforme PRISMA 2020. Buscas em MEDLINE/PubMed, Embase, Cochrane Library, CINAHL, LILACS e Web of Science. Avaliação de qualidade por QUADAS-2 e GRADE-DTA.
Resultados: Para o CAM-ICU, a metanálise bivariada mais atualizada (29 estudos) encontrou sensibilidade agrupada de 0,84 (IC95% 0,77–0,89) e especificidade de 0,95 (IC95% 0,93–0,97), com AUC-SROC de 0,97. A ICDSC apresentou sensibilidade agrupada de 0,83 e especificidade de 0,87, com desempenho superior ao CAM-ICU em delirium pós-cirurgia cardíaca — contexto em que o CAM-ICU registrou sensibilidade tão baixa quanto 38% pela predominância de delirium hipoativo. O subtipo hipoativo é o mais prevalente (16,5%; IC95% 12,1–21,4%) e o mais subestimado. Para biomarcadores séricos, revisão sistemática de 28 estudos (54 biomarcadores) identificou S100β e NfL como os marcadores com associações mais consistentes à presença e gravidade do delirium; metanálise de 40 estudos encontrou IL-6 (SMD=1,45), PCR (SMD=1,26), GFAP (SMD=1,15) e NfL (SMD=0,44) significativamente elevados em pacientes com delirium pós-operatório versus controles.
Conclusão: O CAM-ICU permanece como a ferramenta com maior nível de evidência para rastreamento de delirium em UTI geral, com alta especificidade; a ICDSC oferece vantagem em sensibilidade em contextos de delirium hipoativo e pós-operatório cardíaco. Biomarcadores como NfL, GFAP e IL-6 são candidatos promissores para estratificação de risco e diagnóstico complementar, mas carecem de validação prospectiva e padronização metodológica antes de uso rotineiro.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed. (DSM-5). Washington, DC: APA, 2013.
ALZOUBI, F. et al. Delirium incidence, predictors and outcomes in the intensive care unit: a prospective cohort study. International Journal of Nursing Practice, v. 30, n. 3, p. e13154, 2024. DOI: 10.1111/ijn.13154.
CHEN, T. J. et al. Diagnostic accuracy of the CAM-ICU and ICDSC in detecting intensive care unit delirium: a bivariate meta-analysis. International Journal of Nursing Studies, v. 113, p. 103782, 2021. DOI: 10.1016/j.ijnurstu.2020.103782.
DALLI, O. E.; KELEBEK GIRGIN, N.; KAHVECI, F. Incidence, characteristics and risk factors of delirium in the intensive care unit: an observational study. Journal of Clinical Nursing, v. 32, n. 1-2, p. 96-105, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16197.
ELY, E. W. et al. Evaluation of delirium in critically ill patients: validation of the Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (CAM-ICU). Critical Care Medicine, v. 29, n. 7, p. 1370-1379, 2001.
FONG, T. G. et al. Association of plasma neurofilament light with postoperative delirium. Annals of Neurology, v. 88, p. 984-994, 2020. DOI: 10.1002/ana.25889.
GUSMAO-FLORES, D. et al. The confusion assessment method for the ICU (CAM-ICU) and ICDSC for the diagnosis of delirium: a systematic review and meta-analysis. Critical Care, v. 16, n. 4, p. R115, 2012. DOI: 10.1186/cc11407.
HORI, Y.; MIHASHI, M. Sensitivity and specificity of the CAM-ICU and ICDSC for detecting post-cardiac surgery delirium. Yonago Acta Medica, v. 66, n. 2, p. 214-222, 2023. DOI: 10.33160/yam.2023.05.003.
JONES, K. L. et al. A systematic meta-review of interventions to prevent and manage delirium in the intensive care unit. Critical Care, 2025. DOI: 10.1186/s13054-025-05726-8.
LEONG, A. Y. et al. Prevalence and incidence of ICU delirium and pain: a systematic review and meta-analysis. Intensive Care Medicine, v. 51, n. 11, p. 2093-2103, 2025. DOI: 10.1007/s00134-025-08167-7.
MARSHALL, A. et al. Serum biomarkers of delirium in critical illness: a systematic review of mechanistic and diagnostic evidence. Intensive Care Medicine Experimental, 2025. DOI: 10.1186/s40635-025-00795-z. PROSPERO CRD42024547722.
MIRANDA, F. et al. Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (CAM-ICU) for the diagnosis of delirium in adults in critical care settings. Cochrane Database of Systematic Reviews, Issue 11, Art. No.: CD013126, 2023. DOI: 10.1002/14651858.CD013126.pub2.
PAGE, M. J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, v. 372, p. n71, 2021. DOI: 10.1136/bmj.n71.
SHROUT, P. E. et al. Cytokines and inflammatory biomarkers and their association with post-operative delirium: a meta-analysis and systematic review. Scientific Reports, v. 15, 2025. DOI: 10.1038/s41598-024-82992-6.
WILSON, J. E. et al. Delirium. Nature Reviews Disease Primers, v. 6, n. 1, p. 90, 2020. DOI: 10.1038/s41572-020-00223-4.
WU, C. et al. Incidence, prevalence and risk factors of delirium in ICU patients: a systematic review and meta-analysis. Nursing in Critical Care, v. 28, n. 5, p. 1012-1024, 2023. DOI: 10.1111/nicc.12857.
ZHANG, Y. et al. Validity and predictability of the CAM-ICU for delirium among critically ill patients: a systematic review and meta-analysis. Nursing in Critical Care, v. 29, n. 6, p. 1204-1214, 2024. DOI: 10.1111/nicc.12982.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
- O conteúdo dos artigos é de responsabilidade exclusiva dos autores.
- É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo dos artigos, desde que citada a fonte.
- Artigos com plágio serão recusados, e o autor do plágio perderá o direito de publicar nesta revista.
- Os nomes e endereços informados nesta revista serão utilizados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação e não estão disponíveis para outros fins ou a terceiros.
- Depois de enviar os artigos, os autores cedem os direitos autorais de seus artigos ao BJAER. Se você se arrepender da submissão, o autor tem o direito de solicitar ao BJAER que não publique seu artigo. Porém, essa solicitação deve ocorrer até dois meses antes da divulgação do número que o artigo será publicado.
- O BJAER usa a licença Creative Commons CC BY. Informações sobre esta licença podem ser encontradas em: https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/
Brazilian Journal of Animal and Environmental Research (BJAER) se reserva o direito de efetuar nos originais alterações de ordem normativa, ortográfica e gramatical, com vistas a manter o padrão culto da língua, respeitando, porém, o estilo dos autores. Os trabalhos finais não serão enviadas aos autores.